A Pomerânia além da Europa
A Pomerânia além da Europa

A Pomerânia além da Europa

A Pomerânia além da Europa

Território extinto, identidade transplantada e fundamentos teóricos de sua permanência no Brasil

Arthur Timm

Neste artigo busca fundamentar a tese de que a Pomerânia deixou de existir como território europeu, mas se reconstituiu simbolicamente no Brasil, em diferentes teorica das Ciências Sociais e da História. Conceitos como território simbólico, de Claude Raffestin; memória coletiva, de Maurice Halbwachs; diáspora, de Robin Cohen; longa duração, de Fernand Braudel; etnogênese,  de Fredrik Barthde ; e habitus, de Pierre Bourdieu, permitem compreender como uma identidade regional pode sobreviver à dissolução geopolítica de seu espaço original e ser reinscrita em outro contexto histórico. A existência de comunidades pomeranas no Brasil, nesse sentido, representa uma sobrevivência folclórica e uma atualização social de uma formação histórica deslocada.

A extinção territorial e a dissociação entre espaço e identidade

Território como construção social

A compreensão da Pomerânia como território extinto na Europa exige superar a noção clássica de território como simples espaço físico delimitado por fronteiras estatais. Conforme propõe Claude Raffestin, o território é uma produção social, resultado de relações de poder, práticas simbólicas e apropriações culturais. Quando essas relações são rompidas,  como ocorreu após 1945, com a divisão da Pomerânia entre Alemanha e Polônia, a soberania territorial pode ser extinta e a história invisibilizada, mesmo que ainda o espaço geográfico permaneça.Essa distinção é fundamental para sustentar a tese proposta: a Pomerânia foi desarticulada como território político e simbólico na Europa, mas não como identidade histórica. A ruptura territorial, longe de eliminar a identidade, criou as condições para seu deslocamento.

Memória coletiva e sobrevivência histórica

Maurice Halbwachs demonstrou que a memória coletiva independe do espaço original, de modo exclusivo, onde foi produzida, mas dos grupos sociais que a atualizam. Aplicada ao caso pomerano, essa teoria explica por que a memória da Pomerânia não desapareceu com a perda do território europeu. Ela foi transportada pelas comunidades migrantes e reinscrita em novos espaços sociais.

Essa perspectiva é reforçada por Jacques Le Goff, ao destacar que a memória é um campo de disputa e reconstrução permanente, sobretudo em contextos de deslocamento e trauma histórico. Assim, a Pomerânia brasileira emerge como um espaço de memória ativa, não como simples reminiscência do passado.

Migração, diáspora e reconstrução territorial

A diáspora como forma histórica

A teoria da diáspora oferece um segundo eixo fundamental para sustentar a tese proposta. Para autores como Robin Cohen, as diásporas se caracterizam pela manutenção de vínculos simbólicos com um território de origem real ou imaginado, não sendo restritas ao deslocamento populacional (COHEN, 2008). No caso pomerano, esse vínculo persistiu mesmo após a extinção do território europeu, sendo reatualizado no Brasil por meio da língua, da religião e das formas comunitárias.

Diferentemente de uma migração assimilacionista, a diáspora pomerana produziu um espaço social transnacional, no qual a Pomerânia deixou de ser um lugar fixo para tornar-se uma referência cultural móvel.

Etnogênese e reinvenção identitária

A identidade como processo

A teoria da etnogênese, amplamente utilizada na antropologia histórica, sustenta que identidades coletivas são essências mutáveis por processos históricos contínuos. Sob essa perspectiva, a identidade Pomerânia instalada no Brasil distancia-se da europeia pelo resultado de um processo de adaptação identitária, no qual elementos do passado são reorganizados conforme novas condições sociais.

Esse argumento é central para evitar leituras essencialistas. A cultura pomerana no Brasil foi ressignificada, produzindo uma nova configuração identitária, ancorada em uma memória de origem comum.

Fronteiras étnicas e coesão comunitária

Fredrik Barth enfatiza que o elemento central da identidade são as fronteiras sociais que delimitam pertencimentos, não apenas conteúdos culturais . No Brasil, a língua pomerana, a religião luterana e o padrão de sociabilidade rural funcionaram como marcadores dessas fronteiras, permitindo a reprodução do grupo mesmo em contato intenso com outras populações.

Nesse sentido, a Pomerânia brasileira constitui um território social delimitado por fronteiras simbólicas, mais do que geográficas.

Longa duração, habitus e território simbólico

A longa duração como chave interpretativa

A noção de longa duração, formulada por Fernand Braudel, oferece um arcabouço decisivo para compreender a existência de comunidades pomeranas no Brasil. Estruturas culturais como a organização familiar, a ética do trabalho agrícola e a religiosidade luterana atravessaram séculos e oceanos, resistindo a rupturas políticas e territoriais.

A Pomerânia, nesse quadro, deve ser entendida menos como um evento histórico encerrado e mais como uma estrutura cultural de longa duração, capaz de se deslocar e se adaptar.

Habitus e reprodução cultural

Pierre Bourdieu contribui para essa análise ao introduzir o conceito de habitus, entendido como um sistema de disposições incorporadas que orienta práticas e percepções. O habitus pomerano, marcado por disciplina, religiosidade, centralidade da família e trabalho comunitário, foi reproduzido no Brasil, mesmo na ausência do território europeu original.

Esse habitus funcionou como um mecanismo de reconstrução territorial simbólica, permitindo que a Pomerânia continuasse a existir como prática social cotidiana.

Síntese teórica: a Pomerânia como território deslocado

A articulação entre território social (Raffestin), memória coletiva (Halbwachs), diáspora (Cohen), etnogênese (Barth), longa duração (Braudel) e habitus (Bourdieu) fundamenta cientificamente a tese de que a Pomerânia deslocou-se. Extinta como território europeu, ela foi reinstalada no Brasil como território simbólico, histórico e socialmente vivido.

Essa abordagem permite compreender a experiência pomerana como expressão de um fenômeno mais amplo: a capacidade das identidades históricas de sobreviver à morte de seus territórios de origem, reinventando-se em novos espaços e tempos.

Nota

Publicado em 4 de janeiro de 2025.

Referências

  • BARTH, Fredrik. Grupos étnicos e suas fronteiras. São Paulo: UNESP, 1998.

  • BADE, Klaus J. Europa em movimento: migração, integração e conflitos. São Paulo: UNESP, 2003.

  • BLACKBOURN, David. History of Germany, 1780–1918: The Long Nineteenth Century. Oxford: Blackwell, 2003.

  • BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.

  • BRAUDEL, Fernand. A longa duração. São Paulo: Perspectiva, 1997.

  • COHEN, Robin. Global Diasporas: An Introduction. London: Routledge, 2008.

  • HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Centauro, 2006.

  • LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas: UNICAMP, 2003.

  • RAFFESTIN, Claude. Por uma geografia do poder. São Paulo: Ática, 1993.

  • SEYFERTH, Giralda. Imigração e cultura no Brasil. Brasília: Editora UnB, 1990.